E ela seguiu em paz

Olá, hoje eu preciso escrever!

Estou sentindo uma necessidade tão forte de colocar em palavras tudo que experienciei nos últimos dias, como o faminto precisa de um bom prato de comida. Hoje, em especial, vivi momentos que jamais imaginei viver, a partida de alguém sob meus olhos e minha oração.


Vou aqui contar a história de alguém muito especial. E vou me referir a ela "como a dona do sorriso mais encantador e sapeca que me lembro". Não posso usar o nome porque eu não tenho autorização da família para isso.


Eu a conheci num desfile de pacientes com câncer em 2017. Eu, mestre de cerimônias, e ela, uma das lindas modelos. Naquele dia, assim contei resumidamente a história dela, até aquele momento:


"Em julho de 2016 "a dona do sorriso mais encantador e sapeca que me lembro" começou o tratamento contra o câncer de ovário e o de mama!! Soube que tinha um longo período pela frente! Enfrentou as reações da quimioterapia, passou pela mastectomia e pela reconstrução mamária. Hoje, faz quimioterapia paliativa e acompanhamento médico.

A mensagem dela é para quem passa, ou está com alguma pessoa conhecida em tratamento: "Tenha fé em Deus, acredite que Ele coloca as pessoas certas nos momentos certos e que tudo passa!! Eu, venci".


Infelizmente, passados três anos, o câncer avançou. Pelas mídias sociais ela manteve sempre o mesmo sorriso... Mas, recentemente as postagens começaram a ficar sem fotos e mais raras. Hoje ela partiu.


Na quinta-feira, uma amiga me avisou que a moça do sorriso lindo estava hospitalizada e que a família (mãe e tia idosas) não podiam ficar com ela por conta do risco de contágio pelo coronavírus. Eu que saí apenas três vezes nas últimas três semanas, e apenas para ir ao supermercado, imediatamente disse que iria vê-la.

Soube que a Michelle Bornemann, do Espaço Autoestima (projeto que atende mulheres com câncer) estava tentando reunir pessoas para se revezarem, fazendo um pouco de companhia para a moça.


Claro que enfrentei uma certa resistência das pessoas da minha família. Mas, uma confiança de que nada iria me acontecer e uma consciência dos cuidados necessários, me fizeram dizer que eu iria sim.


No dia seguinte, a última sexta-feira, cheguei ao hospital por volta de 10horas. No posto de enfermagem soube que uma pastora estava no quarto com ela. Porém, tive permissão para entrar, mesmo assim.


Encontrei uma pessoa muito diferente daquela que conheci e que acompanhei pelas mídias sociais, nos últimos anos. Os atuais 39 anos pareciam ter ficado num passado distante!

Ela chorou quando me viu, disse não acreditar que eu estava ali. Perguntei se lembrava quem eu era e ela disse que sim, que lembrava! Tive certeza quando, mais adiante, falou meu nome me apresentando à pastora que, inclusive, nos presenteou com palavras lindas e fez uma oração tão bonita quanto, antes de ir embora.


Fiquei ali, ao lado daquela mulher que estava claramente consciente de que a partida seria em breve. Ela foi medicada e passou a alternar momentos de conversa com outros de um tipo de sono. Momentos em que respondia e outros em que divagava. O sorriso já não era mais o mesmo. Na verdade, eu tentei encontrar os traços da moça que conheci, naquele rosto sofrido, mas eu realmente não encontrava. Porém, numa das vezes em que chamou a enfermeira, disse que eu era a Xuxa e sorriu, como se estivesse fazendo uma travessura. Ali eu reconheci o sorriso de sempre.


Depois disso, coloquei uma meditação guiada para ouvirmos. Ela gostou, adormeceu, acordou e quis conversar. Era difícil compreender o que dizia, mas conseguimos sim conversar. Até porque a linguagem do amor, todos entendemos. Um sorriso, às vezes, é mais significativo do que muitas palavras.

De repente, as dores voltaram e ela tentou levantar sozinha. Confesso que me assustei. Chamei a enfermeira que, carinhosamente, veio atendê-la e ficou acariciando os cabelos dela até que se acalmasse. Aquilo me emocionou profundamente. Minutos mais tarde, uma outra enfermeira apareceu, ela queria se despedir da minha amiga antes de ir para casa. A emoção foi tomando conta de mim, mas eu sabia que, naquele momento, eu precisava comandar os sentimentos.


Depois de três horas de companhia, decidi ir embora porque recebi uma mensagem avisando que a mãe iria vê-la, logo mais.

A despedida foi carregada de mais emoção. Entre outras coisas, ela me disse que tinha adorado a surpresa. Quando cruzei a porta do quarto, as lágrimas pularam dos meus olhos com força e velocidade. Eu sabia que aquelas horas tinhas sido importantes para nós duas... e que tínhamos, ali, sedimentado uma amizade que transcenderia a vida, como conhecemos.


Ontem, dois amigos e outras amigas, entre elas a Michelle e a Rosângela Corsigo (já escrevi sobre ela aqui no Blog), foram ao hospital.

Hoje pela manhã, quando cheguei lá, fui avisada pela enfermeira de que "a dona do sorriso mais encantador e sapeca que me lembro", já não respondia mais. Encontrei minha amiga respirando pausada e ruidosamente. Os olhos parados. Ela estava sofrendo e partindo...

A cena não é bonita, eu sei! mas eu preciso dividi-la com vocês.


Confesso que não esperava, achei que ainda poderíamos conversar... não sei se lhe restava alguma consciência a respeito desse mundo, mas algo me dizia que eu precisava fazer algo para ajudá-la na travessia. Coloquei uma das minhas mãos sobre o peito dela, com a outra fui acariciando-lhe os cabelos e, em voz alta, mantive-me numa espécie de oração... ou talvez algo mais parecido com uma meditação guiada. Fui descrevendo um lindo caminho de luz, relva macia e verde e muitas flores, por onde ela começava a caminhar. Lembrei a ela o quanto era amada e que Deus estava lhe estendendo as mãos para entrar num mundo sem dor, sem sofrimento, sem angústias, desentendimentos ou raiva... apenas amor.

A respiração foi ficando mais suave e por um tempo manteve o mesmo ritmo... mas, aos poucos, foi ficando mais espaçada. A Michelle chegou e juntas continuamos a guia-la pelo caminho de relva, amor e paz.

Até que a respiração cessou.


Mantivemos a calma e incrivelmente pairava um tranquilidade no ar. Esperamos um pouco para chamar a enfermagem. Ficamos ali ao lado dela. Saí para buscar alguém e o enfermeiro que estava no corredor veio prontamente. Ele lembrou que havia dado banho nela, mais cedo... e confirmou a partida. Naquele momento, eu sentei e chorei. Mas logo passou... percebi que eu estava em paz e que "a dona do sorriso mais encantador e sapeca que me lembro" certamente havia partido em paz também!


Escrevo tudo isso não apenas porque eu precisava dividir um pouco dos momentos que vivenciei, mas também para dizer que ninguém quer passar pela doença, ninguém quer assistir à morte... mas que, em alguns casos, ela pode ser misericordiosa.







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