Minha mãe,78 anos e o COVD

Dois meses, cinco internamentos.

No penúltimo, há três semanas, estava tudo certo para que minha mãe fizesse a tão necessária e esperada cirurgia para desobstrução de - pelo menos - uma artéria que leva oxigênio ao intestino. No entanto, na véspera da cirurgia, recebemos a notícia de que a tomografia mostrou várias lesões nos pulmões, compatíveis com COVID-19. Ela era suspeita de ter contraído a doença e por isso iria para o isolamento.

 

Eu, ainda em isolamento por causa dessa mesma virose, quase tive um troço. Imaginei que nunca mais veria minha mãe. Idosa, enfrentando problemas sérios de saúde, fumante desde 12 ou 13 anos... achei que não teria chances.

No dia seguinte, recebemos o resultados dos primeiros testes que deram positivo. No outro dia, no entanto, como minha mãe não apresentava sintomas, recebeu alta para ficar isolada em casa. Finalmente eu estava liberada e pude ir buscar minha mãe no hospital. Decidimos que o melhor lugar seria a minha casa pois eu poderia cuidar dela. 

 

Meu filho mais novo cedeu o quarto dele para a avó ( ele se instalou na edícula). Ela chegou fraquinha, caminhando com auxílio, mas feliz por sair do hospital. Em casa, fiz de tudo para que ela se alimentasse. Sopas, caldos, cremes, sucos, água frequente,  água de coco, gatorade... mas a diarreia e o vômito (provavelmente pelo virose) foram piorando o estado dela. Na última quarta-feira ela começou a ficar meio confusa e um pouco agressiva. Na quinta, nem sentar na cama ela conseguia. Na sexta, eu e minha irmã decidimos levá-la de volta ao hospital.

 

Mas como tirá-la do quarto se não conseguia parar em pé. Mesmo muito magra, minha mãe é uma mulher grande, tem minha altura. Ninguém além de mim e de minha irmã deveria se aproximar por conta do risco do coronavírus. Nós tivemos de carregá-la... foi difícil... eu diria que foi um pouco traumatizante.

Meu pai, de 83 anos, tinha vindo almoçar na minha casa. Ele, meus filhos e meu marido assistiram minha mãe ser carregada, com expressões de tristeza e de impotência sequer poderem ajudar a colocá-la no carro.

O caminho para o hospital me pareceu tão mais longo do que o normal! Fui dirigindo e acompanhando pelo retrovisor o olhar triste e às vezes perdido da minha mãe. Ela que sempre teve aqueles olhar de esmeralda, tão forte! Em alguns momentos ela conseguiu ficar sentada, em outros ela deitava no colo da minha irmã.

Foi uma experiência dolorida!

 

Chegando ao hospital, elas ficaram no carro e fui procurar ajuda, já que se tratava de uma paciente com graves problemas vasculares e com COVID, não dava pra entrar emergência adentro e colocar outras pessoas em risco. Uma médica veio fazer a avaliação da minha mãe ali no carro. Dali foi encaminhada para uma unidade de emergência e fomos informadas de que só uma pessoa poderia acompanhá-la. Minha irmã ficou e voltei pra casa. Coração apertado!

  Meus pais, final da década de 60

 

Muitas horas se passaram, ela fez exames, foi examinada e decidiram que ela deveria ser internada novamente. Estava desidratada e desnutrida e com uma infecção urinária. O problema é que, por ser COVID, não poderia ter acompanhante. Ali foi a vez da minha irmã quase ter uma coisa. Não queria deixar minha mãe sozinha...

Mas não houve jeito então, fui buscá-la. Ontem, só tivemos notícias por telefone e hoje também. Pelo que fui informada ontem, existe a possibilidade dela sair da unidade que atende COVID. E se a infecção ceder, talvez ela possa terminar os antibióticos em casa.

 

Eu me solidarizo com familiares de pacientes que contraíram o vírus e estão internados sozinhos. É muito triste pensar em como o paciente está se sentindo longe das pessoas que o amam. E também é muito triste estar aqui do outro lado sem poder fazer nada para tornar aquele momento um pouco mais leve, com mais calor humano e mais amor.

 

Ainda não sabemos quando minha mãe terá alta. Quando fará cirurgia e quando toda essa rotina de hospital vai terminar. Mas sabemos que cuidar dela, é o mínimo que podemos fazer!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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