Por quem os sinos dobram


Uma filha de 12 anos pergunta para a mãe: "Mãe, o que você faria se o meu pai entrasse por aquela porta agora?" Mas o pai não vai entrar porque a COVID o levou há dois meses.

Um filho avisa aos amigos, "minha mãe se foi! cinco dias antes de tomar a segunda dose da vacina"! Vacina contra o vírus que a vitimou.

Outra filha escreve num texto de homenagem: "Mãe, por três dias você não conseguiu comemorar seus 89 anos"! mais uma vítima dessa doença.

Uma tia desabafa: "amigas, o "L" (33 anos) não resistiu, meu coração está partido".

No dia seguinte, no mesmo grupo, outra amiga envia a seguinte mensagem: "Minha segunda mãe se foi, estou sem chão!". Em menos de 24 horas mais uma notícia no mesmo grupo de amigas: "Não dá pra mensurar isso. Um sofrimento absurdo. Meu cunhado tinha 53 anos, uma filha na faculdade, uma mãe velhinha..."

Meu sorriso, na foto que acompanha este post, não traduz o que meu coração vem sentindo... afinal, quantos amores, quantas histórias, quantos sonhos interrompidos! Mas ele ( o sorriso) foi lançado aqui como isca para atrair a sua atenção, eu confesso! Preciso dela, preciso da atenção de quem ainda não está convencido. Preciso que as frases que citei ressoem por aí como um alerta para que a dor dessas pessoas não tenha que se repetir em outras famílias! Posso parecer pretensiosa, afinal, quem lê este blog? Pouca gente num universo do tamanho do nosso país! Mas, se uma pessoa for impactada por ele, saberei que estas palavras não foram escritas em vão.


E eu poderia continuar reproduzindo as frases que li e que escutei, nos últimos dias, na tentativa de trazer à realidade quem ainda não entendeu o que estamos vivendo. Mas, preciso confessar que cada história dessas é como uma alfinetada profunda, prolongada e dolorida aqui na alma de alguém que se importa com o próximo.

Esses casos particulares que citei nem seriam necessários, uma vez que as notícias são de leitos 100% ocupados. Equipes de saúde esgotadas, em energia e em número também. Falta de medicamentos, falta de oxigênio... o caos instalado! Aglomeração no cemitério, em São Paulo!!!!!

Não se trata de apontar culpados, como disse meu amigo, Vinícius Sgarbe, trata-se de resolver essa situação o mais rapidamente possível. Vinicius que, por sinal, faz aniversário hoje e está comemorando sozinho, em casa, porque assim deve ser. Ele que perdeu um tio recentemente e está com um amigo numa UTI, intubado, neste momento.


No outro dia recebi a imagem de um médico ajoelhado à beira de um leito do irmão na UTI. A legenda dizia que ele clamava a Deus para que o rapaz fosse salvo. Há poucos dias também, assisti a uma reportagem da BBC mostrando a rotina das equipes de saúde que estão na linha de frente. Vi gente que convive com uma certa rotina de dor, de sofrimento e de morte, chorar de impotência diante da quantidade de vidas que estão perdendo para o vírus, apesar de todos os esforços para salvá-las.


Os números são avassaladores! E, como já escrevi aqui, para mim muitos desses números tem nomes... assim como para amigos, parentes e conhecidos das 1259 vítimas fatais do coronavírus, registradas somente no dia 21.03!

E pensar que, se a situação continuar como está, em poucos dias, chegaremos a 300 mil mortos por COVID no Brasil!


Pra encerrar reproduzo mais uma vez o trecho de um texto magnífico que, desde criança, me traduz:

"A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso, não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti", escrito em 1624 pelo poeta inglês, John Donne (1572 | 1631).










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